diferentes interpretações de crowding out e liquidity trap e divagação sobre MMT – excessivamente longo

Não sou formado em economia, e as conclusões que tiro são de uma observação amadora e imprecisa de diferentes pontos de vista que vêm sendo debatidos na web por defensores de diferentes ideias económicas. Dito isto, parece-me que: a distinção entre sistemas que operam num regime de fixed exchange rate, como os que adoptam um padrão-ouro, e sistemas que controlam o sistema monetário e podem imprimir nota (floating exchange rate), é essencial. No primeiro caso a despesa do Governo está limitada pela quantidade de dinheiro que consegue pedir emprestado ou taxar através de impostos. Neste caso, empréstimos ao governo vão provavelmente diminuir a quantidade de empréstimos feita no sector privado: existe uma quantidade fixa de dinheiro disponível para emprestar, e se vai mais dinheiro para um lado, vai menos para outro. O mesmo se aplica ao dinheiro que é taxado e que potencialmente deixa de ser consumido. Este aspecto é o chamado “crowding out”.

Uma excepção acontece quando a propensão para poupar e a aversão ao risco é tão grande que um aumento da quantidade de dinheiro que é emprestada ao governo não diminui a quantidade de dinheiro que é emprestado no sector privado. Isto acontece porque a procura de empréstimos é tão baixa e existe um grande volume de dinheiro parado, que não é consumido nem investido. Neste ponto, as taxas de juro são muito baixas, e pode acontecer a situação de serem, em termos reais, inferiores a zero. Existe uma tendência tão grande no sentido de poupança e segurança que o dinheiro é guardado em depósitos seguros a render uma taxa inferior à inflação. Nesta situação, tentativas para estimular o consumo e o investimento que passem por uma diminuição da taxa de juro, e pela regulação (relaxar ou limitar) dos requerimentos do sistema bancário relativamente ao banco central (politica monetária) podem não funcionar: a baixa actividade económica deve-se a uma tendência geral para poupar, mesmo quando as condições para investir são as melhores. Esta situação é designada por “liquidity trap”, e aqui a teoria Keynesiana tradicional defende que o investimento público é a melhor solução para estimular o consumo, e consequentemente, o investimento. Um exemplo recente dado como uma situação de liquidity trap é o Japão nos anos 90. Política monetária é vista como ineficiente (ver expressão “pushing on a string”). Num outro lado, mais heterodoxo, a teoria Austríaca rejeita o conceito de liquidity trap. Esta teoria está ligada a uma filosofia política de não intervenção governamental em matérias económicas, e situações de liquidity trap são consideradas como uma necessária parte do normal ciclo económico (os baixos níveis de consumo e investimento são o resultado de um processo de reconfiguração de alocações de recursos previamente mal investidos, benigno, necessário e possivelmente doloroso).

Entrando agora num regime “floating exchange rate” (historicamente com o abandono do padrão ouro e adopção de dinheiro fiat), a escola monetarista defende que a actividade económica pode ser sempre estimulada pelas acções de um banco central que se foque não na manipulação das taxas de juro, mas na quantidade de dinheiro circulando na economia. Uma extensão recente do monetarismo, o de mercado (market monetarism) defende que a política monetária deve focar-se na obtenção de um desejado valor para algum indicador económico “alvo”, em valor nominal (não ajustado à inflação). Um “alvo” que é proposto como apropriado é o do PIB, em termos nominais (na forma de taxa de crescimento, ou valor em si, NGDP e NGDPLT, ver aqui http://en.wikipedia.org/wiki/Nominal_income_target). O valor alvo é obtido através da compra e venda de activos económicos no mercado. Sobre a liquidity trap, a posição monetarista é a que um banco central pode sempre induzir actividade económica, por ex. cobrando taxas no excesso de reservas bancárias, interferindo no sistema financeiro, através de compras de produtos pouco liquidos ou considerados de risco (o chamado “quantitative easing”, que tem sido tentado pelo Fed nesta crise).

Uma corrente recente com alguma recente proeminência (Modern Monetary Theory, MMT) combina num pacote noções de chartalism, dinheiro endógeno e finança funcional (ideias com história e associadas ao post-keynesianismo, a vertente mais à esquerda), e uma descrição do comum sistema bancário actual. Assumindo um sistema “floating rate” (ver o início), parte do princípio que um governo que tem o monopólio do sistema monetário e que pode criar moeda à vontade, não está limitado (nos seus gastos) pelo dinheiro que consegue pedir emprestado ou colectar através de impostos. Um maior investimento público pode ser financiado através da criação de moeda. O conceito de crowding out é rejeitado pela MMT – a facilidade de se emprestar dinheiro no sector privado não é influenciada pelo dinheiro que é emprestado ao sector público. Isto acontece porque um empréstimo de X vai provocar um consumo desse X, a que irá corresponder a um depósito, noutras contas bancárias, desse valor X. Mesmo que as contas pertençam a bancos diferentes, as reservas do sistema bancário na sua totalidade, mantém-se constantes. As reservas dos bancos individuais ajustam-se através de empréstimos, de bancos com excesso de reservas para bancos com défice destas. Além disso, os depósitos bancários têm uma garantia de liquidez que é dada pelo banco central capaz de produzir nota à sua vontade. Se o investimento público é financiado, não através de empréstimos ou impostos, mas através de criação de dinheiro, este dinheiro entra no sistema financeiro e aumenta o nível geral das reservas bancárias. Logo, nesta situação, pode existir um efeito oposto ao de crowding out (crowding in?). Na perspectiva MMT, o conceito de crowding out não existe, o Governo pode financiar-se com criação de moeda, e pode controlar a taxa de inflação/quantidade de dinheiro na economia controlando a quantidade de depósitos no sector bancário, através de déficits e superavits. Problemas de consumo/confiança podem (devem) ser combatidos com consumo/investimento público.

Na perspectiva MMT a taxa de juro é uma variável pouco interessante, porque a taxa de juro a curto prazo é definida pelo banco central, e a taxa de juro a longo prazo é definida pelas expectativas futuras da taxa de juro a curto prazo. (E logo, pode ser controlada pela autoridade monetária – nota do autor do post uns meses mais tarde: confirmar isto se faz favor). Uma quantidade ilimitada de empréstimos pode ser feita pelo sector bancário, a uma taxa de juro controlada pelo banco central, desde que as reservas do sector bancário privado, no seu total, se mantenham constantes. Logo, a quantidade de empréstimos feita pelo sector bancário privado não está limitado pelo nível das suas reservas (excepto, claro, se existir alguma lei nesse sentido). (Não está limitado pelo nível das reservas, mas estará condicionado pela expectativa da evolução do nível das reservas, mas isso será outra conversa). Os depósitos no sector bancário privado são definidas por política fiscal (déficits ou superavits), e esta mesma política fiscal é o único instrumento que pode controlar o nível de consumo e actividade económica.

Provavelmente o que acabei de dizer é impreciso em muitos aspectos. Paul Krugman diz que a descrição MMT assume a liquidity trap como sendo um estado permanente, e que isto é falso, que existem situações onde a quantidade de dinheiro emprestada pelo sector bancário depende do nível das suas reservas, e que nestes casos o crowding out pode existir. Relativamente aos market monetarists, não existe entendimento nenhum entre estes e os MMT (e a discussão entre estes é frequentemente hostil). Economistas e gente que perceba, muito agradecido se me puderem corrigir no que estiver errado. Um ponto final: a União Europeia constitui um caso curioso. Os seus estados membros não têm soberania monetária e funcionam segundo um paradigma de fixed exchange rate. No entanto, as instituições europeias funcionam no paradigma de floating exchange rate, tendo o controle da criação de euros. (Pergunta filosófico-existencial: para o que serve, exactamente, este texto? resposta: para me relembrar se me esquecer. pergunta filosófico-existencial: mas nesse caso não é melhor ir directamente às fontes? resposta: epa..)

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s